Bateu o pânico nas fileiras da ITIL

Quem puxou o assunto sobre a obsolescência da biblioteca ITIL não fui eu. Foi o Renê Chiari.

Você pode ler o artigo (cujo conteúdo é brilhante) em defesa da *T*L em:

ITIL sob ataque: o fim está próximo ou é só mais uma reinvenção?

Pois então…

Eu sou apaixonado por uma polêmica.

E convenhamos, quando alguém precisa proclamar em alto e bom som que “não estamos morrendo”, é sinal de que a pá já riscou a superfície do caixão.

É a velha regra não escrita: só falam na morte do papa quando o coração do pontífice dá sinais de cansaço (desculpem aí, católicos, o tema é recente).

Um embaixador da *T*L pode jurar vitalidade, mas a própria insistência na defesa denuncia fragilidade. A biblioteca inglesa que se apresentava como muralha contra o caos, hoje parece um castelinho de areia na maré alta.

O mais curioso é quando alguém que se diz “Embaixador da *T*L” escreve “Com contexto, sem dogma“. Eu sou amigo dele, mas nessa aí, bro, você se passou.

Dogma” é “um ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscutível“. É como um bispo católico dizer que “não considera a trindade santíssima” para efeito de suas conclusões. É questão de fé. Ou é “Sim” ou “Deixe-me”.

E vejam só, que coisa surpreendente (ou não):

Na mesma semana que o Renê publica seu artigo, outro embaixador da *T*L, Adriano Martins Antonio, outro membro do “Think Tank” brasileiro da biblioteca, cria um post:

Link para o artigo do Adriano (que não li, está em inglês e ando preguiçoso com idioma estrangeiro): ITIL isn’t dead.

O framework que prometeu firmeza… agora é manual de autoajuda para consultores “das antigas” (não me incluam nessa, eu sou do grupo “das mais antigas ainda”).

Recordem o gráfico de “early adopters”, “late adopters” (é “retardatários”, mas adopters tem aroma elegante no mundo corporativo).

Escrevi a respeito num artigo de 2022 — Goodbye ITIL.

O pessoal está abandonando a *T*L enquanto ainda dá. Alguns novatos nem conhecem (e nem precisam).

Tempos diferentes daqueles anos 80′ quando a *T*L surgiu

O que se percebe, entre suspiros e comunicados oficiais, é a sombra da pós-modernidade líquida de Bauman: a certeza derrete, os manuais sólidos viram sopa fria (mas tem quem goste).

A *T*L, antes farol de estabilidade e desejo de uma manada de entrantes na TI (quem tiver 40 anos provavelmente tem uma “*T*L Certification”), atualmente navega num mar revolto e com repuxo forte: tudo é fluxo, tudo é beta, tudo é atualização de release notes.

Domenico De Masi diria que estamos num tempo de desorientação (leu O mundo ainda é jovem?).

E não faltam sinais: empresas misturam *T*L com Agile, DevOps com “práticas emergentes” que mal nasceram e já são celebradas. A referência se perdeu. O chão cedeu.

Quem aí conhece aquelas coisas que o Renê citou que mais parecem desafios do jogo Word of Wonders: VeriSM, fitSM, YaSM, ISM? O Adriano apresentou a Humasining IT, HVIT (pensei que ele tinha errado ao escrever HIV) e tal.

Ah, tá bom. Eu li o texto dele, sim. Afinal, é o Adriano.

Quero acrescentar uma abreviatura na sopa: NCP.

Sobrou disso tudo um GPS quebrado, apontando simultaneamente para bibliografias inglesas e posts virais de LinkedIn.

O desespero dos fiéis não é com a suposta morte, mas com a orfandade simbólica.

Afinal, como justificar consultorias, certificações e treinamentos sem o respaldo da “bíblia”?

As novas gerações não rezam mais nesse altar. Preferem gurus de LinkedIn, webinars de meia hora e memes motivacionais no TikTok.

A ironia maior: a própria *T*L sempre pregou Gerenciamento de Mudanças, mas quando ela bate à porta, parece um aristocrata decadente da França dantes (gostou do “Dantes”? Quase um “Danton”) da Revolução Francesa: nega, resiste, finge que não ouviu.

Bauman daria uma gaitada: nada + líquido que uma biblioteca de processos virando vapor.

De Masi também aplaudiria: nunca estivemos tão “criativos” na arte de remendar frameworks com post-its coloridos. O problema nisso tudo é confundir desorientação com inovação.

Evolução?

Claro, haverá quem insista: “isso não é morte, é evolução”.

O próprio Renê tentou essa. Mas com o título de “reposicionamento”.

Botou uma salada de letras no prato e encerrou declarando “Essa combinação dá autoridade, cria relevância e fortalece nossa musculatura intelectual enquanto profissionais da área.

Eu confesso que essa salada não desceu. Parecia o remédio Teofilina que eu empurrava goela abaixo das minhas filhas pra tratar a asma delas. Horríve.

“Evolução” (ou Reposicionamento) que precisa ser explicada, defendida e justificada já se parece mais com obituário de gente famosa.

O corpo ainda quente, mas já velado em silêncio.

A primeira coisa que me veio à mente foi a música Flores dos Titãs:

Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro
Os punhos e os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro.

Aliás, assiste ao vídeo — Titãs e Marisa Monte.

A *T*L, dizem, não morreu. Mas o cheiro de incenso no ar aponta que os sinos já ensaiam as badaladas (exceto se for templo budista por perto).

A pergunta não é se a *T*L está morta, mas quem herdará o templo.

Porque, onde há fumaça, há fogo.

Nesse longo texto não usei argumento racional algum.

Só fiz o que os filósofos da Antiguidade recomendavam: observar a Natureza que, no caso deles, era o Universo.

E CONCLUO: *T*L IS DEAD.

E digo mais…

Se liga, guri, guria, gurx

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