ITIL Version 5 – evolução ou desamparo proposital?

A nova versão da ITIL foi divulgada.

Com pompa, discurso rejuvenescido e um apelido chique: Version 5.

Baaah!!! Tomaram decência e botaram a versão no nome. Homenagem às anteriores.

A ITIL, essa senhora respeitável da governança de TI, descobriu que o futuro é digital e fluido (ou líquido, como dizia o Zygmunt Bauman, pois já morreu).

A questão é: estamos diante de uma inovação genuína ou de um desamparo proposital, embalado numa linguagem contemporânea (“contemporânea”, convenhamos, é chique de último)?

Explico ao final a questão do desamparo.

Durante décadas, a ITIL foi a professora do ITSM. Ensinou como registrar, tratar e encerrar chamados.

Mas como alguns softwares de registro de chamados no Brasil que começaram humildes no Help Desk e terminaram de olho nos Centros de Serviços Compartilhados, a ITIL resolveu que o mundo de TI era pequeno demais para ela.

Expandiu-se para gerenciamento de produtos e serviços digitais e tudo que hoje é descrito como “valor”. E valor, convenhamos, é um conceito beeeeeem amplo.

Por que o movimento para Produtos Digitais?

Essa mutação conceitual não aconteceu no vácuo.

Ela dialoga com empresas que também mudaram de rumo comercial.

  • A Tesla finge fabricar carros elétricos, mas seu lance é aluguel de software embarcado.
  • A Amazon vendia livros; hoje vende infraestrutura, logística e dados.
  • A Apple trocou o culto ao hardware pela graninha mensal da música, TV e nuvem.
  • E a General Electric, outrora símbolo da indústria pesada? Reinventou-se como plataforma de IoT industrial (procure por Predix).

Curioso?

Baixe minha palestra na ExpoTI 2019 — As oportunidades da transformação digital no mundo do suporte técnico

Sai ITSM, entra DPSM

Nesse cenário, a turma da ITIL pensou: se todos podem ser outra coisa, por que ficar presa ao ITSM? Vamo que vamo ser D(igital)P(product)SM!!

Fala sério, seu ITIL creator! Uma startup, um empreendedor vai ler toda essa bíblia pra mudar o mundo? Duvide-e-o-dó (ask to your AI what it means)!!!

OK, um Nubank, iFood ou outro unicórnio precisará disso. Mas olha a dimensão da coisa.

O problema: essa ampliação de escopo vem acompanhada de uma negação da realidade operacional.

Ainda tem 34 práticas. Não diminuiu, não simplificou, não ficou mais aplicável. Apenas incorporou termos da moda — IA é um deles e a Metodologia Ágil (lá de 2001) é outro — com a velha promessa de que, com estudo suficiente, tudo fará sentido.

Estudo esse que, claro, exige tempo, dedicação e uma paciência quase monástica.

Rá! Tá louco! 10 meses pra entender de abstrações. Outros 5 pra estudar pra prova de certificação. Sem falar os 12 meses pra juntar dinheiro e pagar a prova.

Um universo conceitual, desapegado da realidade

O profissional de TI do dia a dia, atolado em incidentes, mudanças e pressões orçamentárias, dificilmente tem fôlego para penetrar “sozinho” nesse universo conceitual. Ué, pra isso, você pode contar com os iniciados, os intérpretes oficiais, os embaixadores, os que “entendem da ITIL” e têm certificações Classe Top-quase-celestial.

Uma espécie de clero técnico que traduz a doutrina para os mortais.

Isso me lembra os 22 volumes da psicanálise que dei de presente pra minha esposa. Profundos, fascinantes, mas.. Não pensa que é assim, só ler. Precisa interpretar corretamente, isso e aquilo… e depois fazer um curso de especialização de 4 anos… e depois…

Tem algo de irônico nesse lançamento.

A velha baronesa trocou um panier (aquelas armações debaixo de vestidos para parecerem largos) por um estilo K-Pop e agora conversa com jovens.

A ITIL Version 5 agora possui simplicidade, clareza e coerência (ouvi 3 embaixadores dizerem isso). Huahuahua, faz me rir. Pior, só que cloroquina cura covid!

ITIL 2, minha amada

Não se trata de negar a relevância histórica da ITIL. Caramba, li, reli e adotei muito conteúdo dos livros sobre suporte da versão 2. Ela era prática. Ajudou a organizou a bagunça, criou uma linguagem comum (chamado virou incidente ou requisição), levou as TIs pra fora da barbárie operacional.

Mas tem uma diferença sutil entre evoluir e inflar. Ao tentar ser tudo, a velha baronesa corre o risco de não ser nada no quesito profundidade prática.

A ampliação desse escopo mais confunde do que orienta.

No fim, a velha baronesa segue o baile, convencida de que ainda dita tendências. Ah, tá bom! Talvez ainda dite, mas para um público cada vez mais restrito (a “nossa tribo”, dizem eles, e os que têm tempo a perder).

Com quase 50 anos de existência — o que, em tecnologia, equivale a uns 500 — a ITIL parece encarar o dilema clássico das instituições que duram muito:

Mudar para sobreviver ou apenas para parecer viva.

Certificações

E ainda há essa tara por diplomas na parede. Ou melhor, no currículo.

Os que já têm certificações precisam de um mapa para saber o que fazer. E como faço as novas? Tenho que fazer tudo de novo? É preciso iniciar no zero na Version 5?

E segue o comércio de indulgências para poder entrar no céu, ao estilo Igreja Católica. Por que não? Se deu dinheiro antes, por que não continuaria dando? Os seres humanos seguem iguais.

E o desamparo, Cohen

Acho que muita ficará desamparada com a Version 5.

Aos poucos ela abandona o ITSM. Nada contra, cada um faz o que bem lhe entende.

Só preciso lembrar do significado da abreviatura ITIL:

Information Technology Infrastructure Library. Hahaha, as duas primeiras palavras já foram pro saco.

Você que é de TI, ponha as barbas de molho.

Lembrete pra você que sai pro feriadão!

Vamos arrumar sua área de Suporte Técnico. Em três dias!

Inscrições aqui – www.4hd.com.br/calendario

Abrazon

EL CO

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *