Agentes autônomos, Rotweillers e Poodles

Estou dentro do universo Service Desk. E nele — assim como no mundo tecnológico em geral — a expressão do momento é “agente autônomo“.

Como veem, não se fala mais IA. Apenas em modo saudoso. Assim como ninguém lembra de eletricidade ou internet — exceto quando falta.

Quero discutir um tópico invisível: a personalidade do agente autônomo.

Como assim, personalidade do agente autônomo?

Hoje é sexta-feira. Dia do esculacho.

E também uma data importante: véspera de Rosh Hashaná.

Sorry, cristãos. Vocês estão no ano 2026.

Muçulmanos no ano 1448. Chineses 4724.

Nós, judeus, vamos para o ano 5.787. 

(OK, assírios estão na frente, mas onde moram os assírios?)

Encerrada a aula de cultura geral, voltemos ao tópico do artigo.

Há quem imagine que criar um agente autônomo seja uma atividade exclusivamente técnica:

  • escolhe as ferramentas
  • define permissões (APIs etc.)
  • escreve um prompt comprido e…
  • deixa a criatura trabalhar

Não é bem assim que a banda toca (hoje seria o playlist).

Destrinchando a ideia de personalidade

Há um risco inerente à atividade.

O criador do agente transfere também para ele sua maneira de compreender problemas, estabelecer prioridades e decidir o que merece atenção. “Pensa” que está transmitindo  apenas instruções.

Vai além: em especial, envolve uma visão de mundo.

O código entra pela porta da frente. Os preconceitos cognitivos, lindinhos e sob um manto de invisibilidade (Smeagol?), entram pelos fundos.

Analogia com cães

Uma analogia com cães ajuda a entender.

Um Poodle (leia pet): é criado (e durante dezenas de anos procriados para determinadas características) para servir de companhia. Permanecer perto, interpretar sinais, buscar aprovação e oferecer presença.

Rottweilers e Dobermans: morder desconhecidos se entrarem dentro de sua área de atuação.

Cada raça funciona conforme predisposições, treinamento e ambiente.

E com o agente autônomo rola algo similar: arquitetura, dados e orientações constituem uma espécie de “criação intelectual”.

Pegue dois gênios, como eu e meu guru: considero que Home Office é a desgraça das empresas (em especial da cultura corporativa). Não quer dizer que tenha volta para o modelo anterior. É o que é.

Meu guru (um gênio com alguns +++ mais do que eu) apoia o trabalho em casa.

Cada qual é impregnado por sua formação de vida.

Aliás, Impregnacionismo é um conceito da filosofia que mostra que até os cientistas têm pontos de vistas, expectativas, interesses e antecipações que formam um quadro, digamos, de referência.

Ou seja, todo mundo está encharcado de questões humanas.

Vamos a exemplos

Agente de perfil técnico: detecta atraso e redistribui automaticamente os chamados. Mancada: sobrecarrega outros analistas sem investigar a causa da demora.

Agente de perfil humano (vou chamar assim na ausência de algo melhor): detecta atraso e reduz automaticamente a carga de um analista. Mancada: protege esse profissional, mas aumenta a espera dos clientes e compromete o SLA.

Outro exemplo:

  • um agente feito por mim seria terrivelmente irônico
  • um feito pelo Ricardo Danelon seria atencioso, elegante e político como o próprio

Quem vem das ciências humanas produziria um pet: atento ao contexto, sensível às palavras, acolhedor e carinhoso. Mas também poderia ficar interpretando palavras de tal modo que a situação… envelheceria à espera de providências.

Quem vem da área técnica, um Rotweiller. Hahaha, exagerei, eu venho da área técnica também, não posso morder minha mão. Produziria um agente eficiente (assim é melhor).

A personalidade do criador transparece no agente

O risco não está no agente “falar como o criador”, porque esses agentes talvez não falam com ninguém.

Mas observam, calculam, decidem e executam. E colocam pesos em aspectos diferentes.

A personalidade do criador aparecerá silenciosamente nos critérios:

  • qual risco merece prioridade
  • quanto tempo uma vulnerabilidade pode permanecer aberta
  • que serviço pode ser interrompido
  • quais efeitos são reversíveis
  • quem suporta o prejuízo quando a decisão falha

O técnico chama suas preferências de lógica. O humanista chama as suas de responsabilidade.

Ambos incutem a própria formação intelectual à categoria de lei natural (precisa estudar Filosofia pra compreender o que é “lei natural”).

Um agente autônomo confiável reúne perspectivas diferentes e, principalmente, tem limites (a palavra-chave-técnica pra isso é guardrail, mas mesmo a escolhe de seu conteúdo vem impregnada).

Sim, Cohen, e aí?

Sextou.

Quando você me pergunta o que fazer, surge um sorriso em meu rosto.

Seu agente autônomo não pode ser puramente técnico. Contrate profissionais (ou estagiários) de Psicologia, Filosofia ou Letras para o seu centro de suporte. Ora direis.

Se os filhotes dos seus analistas de suporte se espalharem, eles serão exclusivamente objetivos, lacônicos e que desprezam o negócio atendido etc. Tudo que você resmunga deles: não compreendem seu papel etc.

Essa foi minha dica pra você.

Mas se ainda tiver curiosidade, pesquise: Karl Popper, Thomas Kuhn e Helen Longino.

Sei que você não fará isso.

Tá mais preocupado em como conectar a API do Gemini com o Open Claw, mas dei o alerta. Lembre-se de mim.

Abrazon

EL CO

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