Literatura lida em 2022

Agora sim.

Semana passada publiquei o que li em 2021. Por um lapso de memória (poderia dizer estava com muito trabalho, até por que não seria uma mentira, mas uma verdade múltipla).

Por isso agora vamos à lista de obras lidas em 2022, mas antes uma explicação do motivo de publicá-la. Leio livros baseado em recomendações de amigos e websites. É uma forma de ter um resumo prévio e saber quando será interessante. Óbvio que aqueles que não gostei não serão indicados aqui.

A arte de fazer acontecer

A arte de fazer acontecer é uma obra seminal (derivação por metáfora: que estimula novas criações, que traz novas ideias, gerador de novas obras; inspirador) de David Allen.

Ele criou a metodologia GTD para gerenciamento de tempo que adoto desde 2007 (ou seja, 15 anos!).

Foi um momento em que minha vida estava desorganizada em função do volume de tarefas a realizar (parecia um gerente de suporte novo). Busquei uma forma de pôr ordem nas coisas e a melhor que me pareceu foi a do David Allen.

O livro, para muitos, é referenciado como a bíblia da gestão do tempo.

Quem desejar conhecer meus passos iniciais poderá ler no artigo inicial em GTD – Get Things Done – parte 1 e seguir o rastro.

A era da intolerância

A era da intolerância de Thales Guaracy bem poderia caracterizar os recentes momentos da política brasileira, mas não (só).

Ele trata de explicar as origens e como chegamos a esta situação atípica no mundo: a tecnologia ajudou a expandir fenômenos supostamente arcaicos, como o fundamentalismo religioso, o radicalismo político, a xenofobia e as rivalidades nacionais, que se imaginava extintas após o fim da Guerra Fria.

A mudança do capitalismo industrial para o tecnológico (expressão minha) extinguiu empresas, incorporou-as a outras, promoveu corte de postos de trabalho e substituiu gente por tecnologia, gerando riquezas.

Mas fez crescer em massa o desemprego e a exclusão social.

O autor aborda os vários tipos de intolerância e mostra que alguns deles até são necessários, como a intolerância contra o crime.

O livro é dividido em vários capítulos: o fanatismo contra o Estado, o fanatismo de Estado, a pobreza na riqueza, xenofobia e populismo, a democracia ameaçada, a vis autoritária, a política da fé, o crime e o autoritarismo, e evolucionismo capitalista e assim por diante.

Mas o mais interessante é como Guaracy, com grande competência, resgata o passado e mostra como as peças foram se combinando para, de forma ingênua (ou não), criarem os horrores que vemos hoje em todos os lugares do mundo.

Como chegamos até aqui

Steven Johnson é o cara. Procure livros sobre ele e encontrará títulos como De onde vêm as boas ideias e várias obras de reconhecimento mundial (aliás, De onde vêm as boas ideias é interessante para compreender por que voltar ao escritório).

Como chegamos até aqui nos deslumbra com 6 inovações que nunca demos muita bola, mas que mudaram o rumo do nosso planeta. E que pouca gente percebe. Um exemplo? O vidro.

O vidro dá origem a espelhos, lentes de óculos, microscópios, lunetas, fibra de vidro (mais conhecida como fiberglass e usada em pranchas de surf, capacetes, piscinas, placas de circuitos etc.) e fibras óticas (atravessando o Atlântico e permitindo troca de dados em alta velocidade, sem falar na sua casa). O seu celular, o seu computador, a sua televisão e assim vai.

Leia esse excerto:

As taxas de alfabetização subiram significativamente (com a imprensa de Gutemberg que exigia o uso de óculos); subversivas teorias científicas e religiosas foram traçadas em torno dos canais oficiais da crença ortodoxa; divertimentos populares, como o romance e a pornografia impressos, tornaram-se lugar-comum. Mas a grande descoberta de Gutenberg teve outro efeito muito menos célebre: fez um número enorme de pessoas tomar consciência, pela primeira vez, de que era presbíope, e essa revelação aumentou a procura de óculos. 

A refrigeração que permite sua cerveja chegar geladinha na mesa é outra inovação que pouca atenção damos. Mas ela faz com que o exterior esteja a 40 graus de temperatura e possamos trabalhar dentro do escritório ou em casa. E isso permitiu morar em lugares horrivelmente quentes, por exemplo). E os alimentos congelados? Tchê, isso causou uma revolução no cotidiano pouco percebida.

O interessante é ver como, historicamente, as invenções foram acontecendo de forma desorganizada para chegarmos até a vida atual.

O autor apresenta uma cronologia de como o espelho desenvolveu o individualismo e propiciou o movimento da Renascença.

As outras inovações não vou contar, vá ler!

Como pensar: um guia de sobrevivência para um mundo em desacordo

Como pensar: um guia de sobrevivência para um mundo em desacordo foi escrito por Alan Jacobs.

Alan é professor de Ciências Humanas e descreve as forças sociais que, atualmente, trabalham para impedir que muitos de nós pensem. Aliás, eu tenho investido muito tempo de leitura nesse tema, pois meu próximo livro e projeto, há anos largado numa pasta abandonada dentro do meu Dropbox é Psicologia em Help Desk e Service Desk.

No livro constam aspectos como nosso desejo de pertencer a alguma facção (leia boards, clubes etc.) à nossa visceral rejeição a grupos externos, nossa dependência de termos (palavras) exagerados e outros tópicos que nos tornam cada vez menos capazes de reconhecer nossos lapsos.

Citação de T. S. Eliot na obra: Quando não sabemos, ou não sabemos o suficiente, tendemos sempre a substituir pensamentos por emoções.

O que foi espetacularmente verdadeiro nas últimas eleições de Bolsonaro vs. Lula, hein?

Dos capítulos: começando a pensar; atrações; repulsões; a moeda dos tolos; a era do agrupamento; aberto e fechado; uma pessoa pensando; os prazeres e perigos de pensar.

Aliás, segue o checklist final do texto:

1) Quando confrontado com a provocação de responder ao que alguém falou, espere cinco minutos. Dê uma caminhada, cuide do jardim ou fatie alguns legumes. Envolva seu corpo; seu corpo conhece seus ritmos, e, se sua mente se deixar levar pelo ritmo do corpo, você terá uma chance melhor de pensar.

2) Tanto quanto possível, online e offline, evite pessoas que botam lenha na fogueira.

3) Lembre-se que você não tem que responder ao que todos estão respondendo para sinalizar sua virtude e ideias corretas.

4) Se você tiver que responder ao que todos estão respondendo para sinalizar sua virtude e ideias corretas, ou perderá seu status na comunidade, então deve perceber que não é uma comunidade, mas um Círculo Interno.

5) Gravite, tanto quanto possível, e de toda forma possível, em torno de pessoas que pareçam valorizar a genuína comunidade e possam lidar com os desentendimentos de forma tranquila.

6) Pacientemente, e tão honestamente como puder, avalie suas antipatias. Algumas vezes, o “fator náusea” é revelador; outras, é uma distração do que realmente importa.

7) Procure as pessoas melhores e mais imparciais de cujas opiniões você discorda. Ouça o que elas têm a dizer por um tempo sem responder. Não importa o que digam, reflita bem.

8) Tente descrever as posições das pessoas na língua que elas usam, sem se permitir usar “em outras palavras”.

9) Cuidado com metáforas e mitos que possuem muito peso cognitivo; procure com cuidado as metáforas escondidas; repare para onde suas “telas terminísticas” estão dirigindo sua atenção, e de onde elas a estão afastando.

10) Valorize o aprendizado acima do debate. Não “fale para vencer”.

11) Seja corajoso.

Guia de leitura, 100 autores que você precisa ler

Tá chegando o período de férias e/ou marasmo, por isso fui pesquisar o que ler em termos de literatura de ficção.

O livro Guia de leitura, 100 autores que você precisa ler, organizado por Lea Masina dá boas recomendações.

Alguns autores para mim desconhecidos (afinal, são 100 deles!) e outros que nem pensar, não vou ler mesmo por que são complicados.

A lista engloba, em ordem alfabética, pessoas como Albert Camus, Aldous Huxley, Alexandre Dumas (Os 3 mosqueteiros, O conde de Monte Cristo, O homem da máscara de ferro) e o seu filho, Alexandre Dumas Filho (A dama das camélias), Anton Tchekov, Bram Stocker (Drácula), Charles Dickens, Edgar Allan Poe, Émile Zolá, Ernest Hemingway e por aí vão.

E digo mais: não fosse férias, ainda assim precisamos nos desconectar do digital.

E essa é uma boa “saída”.

How to change

Uma obra frequentemente recomendada em vários blogs que visito.

How to Change, The Science of Getting From Where You Are to Where You Want to Be de Katy Milkman, professora de universidade e premiada cientista comportamental.

(Tem a versão em português também!)

O texto é simples de compreender (voltada ao leigo em ciências comportamentais) e se dedica a nos ajudar em nosso cotidiano, como incentivar a realizar exercícios e até votar (o voto é facultativo nos EUA).

Depois de longa explanação em cada capítulo, ela tem um resumo ao final de cada um. Bem bom para fixarmos o mais importante, pois nos inundamos de ideias (eu, ao menos) do que fazer.

A) Novos começos podem ser datas do calendário que marcam novos começos (um novo ano, estação, mês ou semana), aniversários ou aniversários. Eles também podem ser desencadeados por eventos significativos da vida, como um susto de saúde ou uma mudança para uma nova cidade. E, finalmente, as redefinições – quando as métricas que você está usando para acompanhar seu desempenho são zeradas – também podem oferecer novos começos.

B) Mary Poppins tem razão. Quando a busca de objetivos se torna instantaneamente gratificante pela adição de “um elemento de diversão”, o viés atual pode ser superado. 

C) As promessas públicas são uma forma de compromisso “suave” que aumenta o custo psicológico de não atingir seus objetivos. Elas são surpreendentemente eficazes, embora não tão eficazes quanto os compromissos “rígidos”, que envolvem penalidades ou restrições mais tangíveis.

D) Se você formar muitos planos baseados em dicas de uma só vez, poderá ficar desencorajado e seu compromisso diminuirá. Portanto, seja seletivo sobre quais metas você planejará em um determinado momento. 

E) Pegar carona dos novos hábitos nos antigos pode ajudar na formação de hábitos. Vincule o que você espera começar a fazer regularmente (como flexões ou comer frutas) com algo que você já faz habitualmente (como tomar uma xícara de café da manhã ou sair para o trabalho).

Noites gregas

Ah, a mitologia grega. Como nos fascina. A mim, pelo menos.

Claudio Moreno foi meu professor de português num curso pré-vestibular. E especializou-se com o tempo nesse tema (mitologia grega).

Hoje tem um podcast com toda a antologia de deuses, heróis e mitos da Grécia Antiga. E é impressionante perceber como várias histórias modernas…

Já foram escritas há muito tempo!!! E como nos influenciam até hoje.

Noites gregas é uma coletânea de crônicas sobre a mitologia e sua relação com o mundo atual.

Pra vida toda valer a pena viver

Eu estou com 61. Você talvez esteja por aí ou tenha parentes nessa idade ou mais, por isso…

Pra vida toda valer a pena viver foi escrito pela médica geriatra e especialista em cuidados paliativos (a pessoa vai morrer, como ajudarmos ela?) Ana Claudia Quintana Arantes.

O livro inicia assim:

Suponhamos que nós dois, você e eu, tenhamos hoje 40 anos. Firmamos um compromisso: daqui a trinta anos, quando tivermos 70, nos mudaremos para o Saara. E vamos morar lá para sempre.

Finalmente estamos diante do grande dia. Chegamos. Menos de uma hora depois de desembarcar, você comenta: “Nossa, mas é muito quente aqui.” Sim, é bem quente mesmo. Sinto muito, mas você sempre soube que no deserto faz calor, não é? “Ah, mas venta muito”, você diz em seguida. Sim, venta. Mas você também sabia disso, certo? Passamos trinta anos esperando por esse dia e de agora em diante esta será a nossa casa. Não há como voltar atrás. “Mas eu não quero viver assim.” Lamento, combinado é combinado. Você teve três décadas para morrer e não morreu. Agora precisa se acostumar.

“Ana, eu sabia que era quente, mas não que era tão quente. Além disso, não trouxe protetor solar nem óculos escuros para proteger os olhos de tanta luminosidade!” Sinto muito. Teremos que seguir em frente sem protetor e óculos especiais.

“Precisava ter trazido comida? Água?” Isso já é o cúmulo do despreparo. O deserto não costuma ser hospitaleiro com os viajantes distraídos, nem mesmo com os mais abastados intelectual, social ou financeiramente. Ele guarda surpresas bem desagradáveis para quem não o respeita e não se prepara para estar nele. Agora só lhe resta acreditar que é capaz de aprender a lidar com a realidade.

Nessa metáfora, o deserto do Saara é a nossa velhice.

Se não morrermos antes, é certo que envelheceremos. E, se sabemos desde sempre que vamos envelhecer, como explicar o fato de não nos prepararmos para isso?

Por que nos permitimos chegar ao deserto sem protetor solar, sem agasalho, sem comida? Não importa se você é pobre ou rico: se não respeitar esse futuro e se planejar para estar nele pelo resto da vida, terá um tempo bem sombrio e difícil pela frente.

Pois é assim que muita gente se comporta diante da ideia de envelhecer.

Curiosamente, esperava um livro em clima depressivo. Pelo contrário, existem muitas dicas e recomendações para levar uma vida legal na velhice.

Por exemplo, aceitar ajuda dos outros no futuro; a cultivar boas lembranças (guardo todas as fotos de minhas viagens, nunca se sabe, hehe); encontrar um sentido na vida, mesmo na velhice e outras de quem convive com a dureza de auxiliar as pessoas nos seus momentos finais.

É isso!

Aí vem o 2023

Vamos às festas de final de ano?

Arriba, world, I love you.

A todos que me acompanham (e mesmo aos haters), um abração muito querido e desejos de abundante alegria nessa virada de ano.

E tomem todas as vacinas, please!

EL CO

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