Autocracia do ITIL

by El Cohen

Movimento consumista e social mostra quem manda nas áreas de TIs das corporações (ou na cabeça dos profissionais) : ITIL

king2Esta semana não publiquei artigo algum aqui no blog.

Fiquei envolvido com a liberação do novo site do 4HD (vão lá ver como ficou clean! Boa parte desse trabalho influenciado pela obra do Maeda, As leis da simplicidade).

Mas no meu período de lazer, envolvi-me com quatro conteúdos:

  • Assistir ao vídeo documentário da vida de Peter Drucker, pai do gerenciamento moderno
  • Assistir ao filme A Onda
  • Continuar lendo o livro Vida para o consumo
  • Ler blogs de colegas

Na última quinta-feira (ontem!) tive um estalo. Daqueles insights que geralmente aparecem quando estamos ir dormindo ou circulando pela cidade.

Constrói-se uma ditadura ITIL no país

Esse texto é longo por que busca explicar como cheguei a essa conclusão.

Se está sem tempo (principalmente para refletir e pensar no que escreverei), melhor zap’ear para uma outra URL.

Se ainda permanece por aqui, hehehe, fico feliz e vamos lá…

Do filme do Drucker

druckerA profissão dele era escritor, segundo palavras do próprio. Assim, ministrava consultoria e treinamento para ter insumos aos seus livros.

Reputava-se um bombeiro de teatro. Conhecia tudo sobre a peça em questão, pois já a assistira trocentas vezes, mas não participava da mesma.

A principal obra dele,  segundo minha visão: simplificava as coisas.

Tornava as ideias claras e compreensíveis.

Leia algumas frases e máximas do Drucker:

Como gerente você é pago para estar desconfortável. Se você está confortável, é um sinal seguro de que está fazendo as coisas erradas.

Da prática do abandono: “Se já não estivéssemos nesse negócio, entraríamos nele hoje?”

A função da gerência é produzir resultados.

Há apenas uma definição válida para a razão de ser de um negócio: criar e manter clientes.

As únicas coisas que evoluem sozinhas em uma organização são a desordem, os conflitos e o baixo desempenho.

“Gerenciar é fazer direito as coisas; liderar é fazer as coisas certas”.

Você pode achar tais frases tais frases um tanto  piegas e óbvias. Mas claro, depois que a cortina é retirada, o mágico de Oz realmente se revela. E tudo vira óbvio.

Uma das frases é que o resultado está lá fora.

O que significa isso? Que as empresas de tecnologia podem se envolver tão profundamente no desenvolvimento de um produto, software ou serviço que ESQUECEM OU DESCONSIDERAM a opinião daquele que usará o mesmo: o cliente.

Retomando: quando leio muito dos artigos sobre ITIL que circulam pela “blogsphera“, tudo se torna muito complicado, embaralhado. Assunto só pra especialista mesmo.

Não estou dizendo que o ITIL seja assim, mas que as pessoas se apropriam dele para tornar mais solene, chique e pomposo seu conhecimento. Duvida? Leia o texto abaixo que recebi de um rapaz que faz TCC na área, inquirido do por que eu deveria responder em 20 linhas e não apenas uma:

Você me pegou por um instante, mas o método de pesquisa que utilizamos procura a efetiva utilização do julgamento intuitivo, com base nas opiniões de especialistas. Este método não fornece uma resposta analítica, precisa, mas sim um apanhado sistemático das opiniões.

Katzo, que embromation duc’acete!

Demorei um tempão pra entender a mensagem!

Pra que complicar o simples?

Vida para o consumo

vida_para_consumoO autor Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, publicou uma penca de livros com o sufixo “líquido”. Amor líquido, Modernidade líquida, Tempos líquidos etc. Com “líquido” ele quer dizer que muitas fronteiras se perderam e quem trafega aqui, vai pr’ali também com muita facilidade e sem constrangimentos.

Esse livro “Vida para o consumo – a transformação das pessoas em mercadoria” apresenta a migração de uma “sociedade de produtores” para uma “sociedade de consumidores”.

Alguns excertos do livro exemplificam bem minha ojeriza em relação a certificações (ITIL, em especial):

Onde eles vivem, levar a vida social eletronicamente medida não é mais uma opção, mas uma necessidade do tipo “pegar ou largar”.

Além de sonhar com a fama, outro sonho, o de não mais se dissolver e permanecer dissolvido na massa cinzenta, sem face e insípida das mercadorias, de se tornar uma mercadoria notável, notada e cobiçada, uma mercadoria comentada, que se destaca da massa de mercadorias, impossível de ser ignorada, ridicularizada ou rejeitada. Numa sociedade de consumidores, tornar-se uma mercadoria desejável e desejada é a matéria de que são feitos os sonhos e os contos de fada.

A demora é o serial killer das oportunidades. (…) Na cultura “agorista” , querer que o tempo pare é sintoma de estupidez, preguiça ou inépcia. Também é crime passível de punição.

A sociedade do consumo prospera enquanto consegue tornar perpétua a não-satisfação de seus membros (e assim, em seus próprios termos, a infelicidade deles).

A eterna busca do próximo certificado!

O pobre é forçado a uma situação na qual tem que gastar o pouco dinheiro ou os parcos recursos de que dispõe com objetos de consumo sem sentido, e não com suas necessidades básicas, para evitar a total humilhação social e evitar a perspectiva de ser provocado e ridicularizado.

E no caso de um pleito amplamente reduzido à exibição de emblemas, que começa com a aquisição de emblemas, passa pelo anúncio público de sua posse e só é considerado completo quando a posse se torna de conhecimento público, o que se traduz, por sua vez, no sentimento de “pertença”.

Vou twitar: consegui minha certificação!

O que de fato importa é que quem está no comando agora é você. E no comando você deve estar: a escolha pode ser sua, mas lembre-se de que fazer uma escolha é obrigatório. (…) Obviamente, para começo de conversar, não controlamos o que nos está disponível para escolher.

Onde essa leitura nos leva?

Vivemos numa sociedade de consumo.

Somos impelidos a gastar nossa grana em coisas que nem damos tanto valor, mas os outros dão. Nem que sejam aqueles que vendem a certificação, hahaha.

Filme A Onda

a_onda_cartaz1Ontem, no horário do meio-dia (no Rio Grande do Sul ainda prestigiamos esse período para almoço e lazer) continuei a assistir o filme “A Onda”.

http://bit.ly/7huVF

A sinopse pra você:

O filme inicia numa sala de aula. Estão discutindo autocracia.

Pelo Houaiss, meu dicionário preferido:

“Poder ilimitado e absoluto. “

Os alunos reportam a Hitler. E questionados pelo professor, declaram veementemente que jamais isso aconteceria de novo, pois o povo é mais esclarecido  em relação a tais situações.

Well, my brothers and sisters..

A onda é o movimento criado pelos alunos para melhorar o mundo. Espalham adesivos, bem ao estilo da gurizada, por toda a cidade. Picham prédios. Aquela energia típica. A frase é “Todos nós pensamos pelo melhor”. E na medida em que o drama avança, os participantes expulsam tudo que não seja compatível com a onda. E resulta num final conflituoso e grave.

Mas a mensagem é:

Batalhamos por algo melhor. Em coletividade.

E o que pode rolar é que tudo que não se identifica (com ITIL?) conosco é uma porcaria e dever ser banido ou submetido ao novo pensamento. Um totalitarismo enfático e não aberto a divergências!

Estamos chegando quase lá…

Dum blog de colega

rede_eletricaEu imagino que todos acompanharam o apagão que aconteceu no início desta semana.

Uma falha. Daquelas que não pode acontecer.

Mas acontecem.

Assim como as falhas de segurança no ataque às torres gêmeas em 11 de setembro. E outras tantas catástrofes como a queda das bolsas, a crise do petróleo de 1973 (você nem era nascido, hein?) etc.

E  me deparei com um texto de um colega criticando a gestão do apagão:

Todas essas perguntas seriam feitas ao se aplicar conceitos fundamentais de continuidade, capacidade, disponibilidade e níveis de serviço. Vamos dar uma luz, que tanto falta para os gestores que cuidam da geração e distribuição de energia em nosso país: vamos certificá-los em ITIL Service Manager! Ou seria Foundation?

Uau!

O sujeito que escreveu isso é infalível? Acredita piamente que sua religião (ITIL) possa resolver todos os problemas do mundo?! Que os engenheiros responsáveis não tinham treinamento ou passavam o dia inteiro a passear pelos campos?

E ainda, de inhapa, crê  que ao colocar uma medalha ou diploma no peito do sujeito terá evitado o problema, desprezando inúmeras outras variáveis, a iniciar pela própria força da natureza (tsunamis, furacões etc. tem mostrado o horror que acontece no mundo), ausência de recursos, momento político etc.

Das conclusões obrigatórias

1) O problema não é o ITIL, é claro.

Ele é um framework, metodologia, melhores práticas (como quiserem) que vem ajudar a forma como coordenamos as ações dentro de TI e serviços em geral.

A nhaca mesmo é o uso que fazemos dela (biblioteca).

2) Tornamos quase obrigatório um sujeito ter certificação. E galgar as próximas etapas delas. E se certificar nas novas versões, dispensando mais tempo. E recursos. Sem saber se isso será realmente útil (não o estudo em si, mas a posse do diploma e sua afixação na parede virtual).

3) Complicamos tudo.

Convém citar Nietzsche: “Quem sabe que é profundo busca a clareza; quem deseja parecer profundo para a multidão, procura ser obscuro. Pois a multidão toma como profundo aquilo cujo fundo não vê.

4) Vamos além e desprezamos as outras metodologias, formas de operar, ideias etc.

Tudo tem que ser ITIL. Ou então não presta.

Não importa os resultados obtidos. Se acontece uma desgraça, é por que não rezavam para nosso Deus.

Bueno, explicar demais também fica chato.

Pense a respeito…

Abraços,

El Cohen